Já passou tanto tempo! Deixei
passar o tempo, devagar, olhando cada segundo como uma oportunidade, esqueci o
barulho dos cascos na terra dura, ignorei a poeira levantada ao longe, esqueci
a égua esbelta, o bosque plantado onde o horizonte termina, o som cavo do
tropel. Esqueci, esqueci até hoje. Sim, hoje resolvi voltar ali, arriscar o
confronto, testar o abandono, lembrar de novo, recusar de novo.
Aproximei-me outra vez daquela
planície, cheia de marcas de cascos impressos no pó de tantas ventanias, vi o bosque
verde que despontava, ladeando-a, o horizonte azulado que com ele se confundia,
a luz que me feria os olhos, a leve brisa que continuava a soprar e que ainda
não me trazia ecos, a pedra que se me oferecia sempre como assento. Mas a obra
não se completava, faltava o pelo negro, o corpo que sempre descansava na
sombra, os olhos matreiros semicerrados, as orelhas sempre atentas. O Lobo não
estava lá.
Encolhi a distância, alcancei a
pedra lisa, ignorei o pó que a cobria, aceitei o seu convite, sentei-me, abandonei-me,
acompanhei o leve assobio da brisa, abriu-se à minha frente o sonho. O verde do
bosque parecia agora mais perto, ondulava levemente, transpirava calma.
Fiquei ali. Fiquei mas os
pensamentos faziam-me distante, traziam-me lembranças, coisas pouco claras,
envoltas na neblina de tempos remotos, de sensações adiadas, de desejos
recusados, de incêndios extintos, de corações divididos. Fiquei sem saber muito
bem porquê, agora pareciam-me não fazer sentido, tudo se misturava, vacilei. O
melhor mesmo era esquecer, ir embora, todas as caixas estavam fechadas,
seladas, para sempre havia jurado, para sempre, não ia recuar agora… Nada de
fraquezas, nada de recuos, nenhuma cedência.
“Vou embora! Parva! Estás aqui a
fazer o quê?! Basta!” – Pensei. Levantei-me da pedra, sacudi a poeira,
virei-me… Nesse instante ouvi algo conhecido, senti um bafo quente junto a mim,
um arrepio percorreu-me, parei. O que ouvira era quase imperceptível, um leve
toque, abafado na poeira, um aviso de perigo, um pressentimento. Olhei e
encontrei dois olhos que me fitavam, vi o pelo negro, os caninos pontiagudos,
as orelhas atentas. O Lobo Negro tinha voltado, e olhava-me como para me
avisar, para impedir a fraqueza que me assaltara, o assomar de cada dúvida, a
incerteza.
Percebi. O Lobo aparecia sempre,
estava sempre, ficava sempre. Sorri. Eu sabia que aquela paisagem estaria
sempre incompleta enquanto a sombra da pedra não o acolhesse. Ele fazia parte
daquela magia, porque era o guardião de todas as verdades, de todas as dúvidas,
de todos os sonhos, de todas as entregas, de todos os abandonos, de todas as
mortes, de cada paixão. Aceitei o desafio, voltei a aceitar a pedra, o
horizonte, o bosque, e ele.
O Lobo passou por mim, o seu
olhar ignorou-me, ladeou a pedra, enroscou-se na sombra como que adormecido. Abandonei-me
outra vez ao sonho, senti o passar dos minutos, vivi a curva do sol lá no alto,
cheirei o calor do pó, segui cada pegada desenhada.
Subitamente algo me despertou.
Uma silhueta negra recortada bem longe, uma nuvem de poeira, um bater surdo.
Avistei um alazão negro, galopando, calcando o chão, encurtando a distância. O
meu coração acelerou, bateu mais forte, os olhos focaram-se na imagem, um
impulso arrancou-me da pedra. Porquê?!
O vulto negro foi crescendo
rapidamente. Aproximou-se. Já conseguia cheirar o suor que se misturava com o
vento. E de silhueta passou a corpo, e o corpo foi crescendo, tornou-se altivo,
mostrou-se-me belo. O pelo estava coberto de poeira amarela, daquela que preenchia
aquele chão, empapando o suor que lhe escorria pelo pescoço altivo.
Quando se abeirou vi que afinal
os meus olhos me haviam traído. Afinal aquele não era o “meu” Alazão Negro, era
outro, mais velho, mais corpulento, embora igualmente belo. Porque seria afinal
que me estava a sentir atraída, porque teria sentido aquele arrepio, aquela
sensação agradável de um outro encontro, o despertar de cada recordação?
O Alazão aproximou-se calmamente,
pescoço arqueado, crina ao vento, olhos fixos em mim. Chegou-se, já lhe sentia
o bafo quente. Sacudiu-se, a poeira voou, atingiu-me os olhos, cegou-me por
momentos. Quando a visão voltou, vi-o diferente, coberto de pó vermelho de
outra planície que já havia esquecido, com outra manada, entre outras fêmeas,
mais novo, pouco mais que um potro. Nem queria acreditar, afinal era ele, o meu
primeiro Alazão Negro, aquele que libertara, que me assustara de morte e a quem
eu assustara também, aquele de que fugira, rodeada que estava dos meus medos de
adolescente. Vi-o num outro horizonte, saído de um outro bosque, preso no laço
de outra corda.
Estendi os braços, abracei-o pelo
pescoço, senti como ofegava, senti o calor da respiração sobre o meu ombro, o
suor que me ensopava a camisa, a poeira que se misturava nas mãos. Imaginei a
poeira vermelha que já me tinha coberto, o contraste com o pelo preto e sedoso,
as cavalgadas que não fizéramos, as recusas, os recuos, o abandono. Tudo passou
pela minha mente como um furacão, remexendo-me as entranhas, abanando-me,
fazendo com que as pernas vacilassem.
Afaguei aquele pescoço e revivi
outras carícias, esqueci o que ali tinha vindo fazer, esqueci o “meu” Alazão
Negro. Sim, esqueci, porque afinal o “meu” Alazão era aquele que agora
reencontrara, aquele que tinha ali, que abraçava, que via coberto de vermelho
cada vez que os olhos fechava, e que finalmente reencontrara e me reconhecera.
Larguei-o, voltei-me, vi o Lobo
que continuava sentado na sombra da pedra que me acolhera, de olhos
semicerrados como se não me quisesse ver, apenas esperando o meu próximo passo,
adivinhando todas as dúvidas que me atravessavam o espírito, todas as
interrogações que o meu eu racional perguntava à outra metade de mim.
Vi o Lobo, percebi que não me
abandonaria mais uma vez, percebi que nunca me abandonaria, percebi que me
protegeria, que estaria sempre a um passo do princípio de cada sonho.
(António Amaral)

1 comentário:
Wow! De ler e beber cada palavra. Obrigada.
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