sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

“O Alazão Negro – A libertação”



Aquele terreiro seco, continuava a fazer parte de mim, de cada recordação vincada nas pegadas desenhadas no pó feito pedra, gravadas por tantos cascos que o haviam pisado, nos galopes desenfreados dos corcéis que por ali habitavam. O bosque crescia nas sombras que o sol desenhava do seu alto, dando um toque de fresco que por ali se fazia rarear.

Mas desta vez o que ali me levava era bem diferente. Queria certificar-me do que sentia, de tudo o que mudara, daquilo que sempre soubera mas em que não acreditara, no que já me tinham dito e eu não enxergara.

Sentei-me na pedra que sempre abrigava o Lobo. Acrescentei a minha sombra à que sempre resistia, olhei-a e vi o felpudo negro, deitado como que adormecido. Mas eu conhecia aquele sono como ninguém, sabia de toda a sua astúcia, o fingir que não se importava. Mas no seu dormitar tudo via, tudo enxergava pelas frestas dos olhos, no leve rodar das orelhas pontiagudas, no brando arquejar, no eriçar suave do pêlo. 

Falei-lhe como se esperasse resposta, como se me pudesse reconfortar, esquecendo o seu estatuto de irracional, a sua ferocidade.

- Sabes? Acabou! Cansei-me de me subjugar, de me oferecer, de amar sozinha, de abraçar o vazio que mora ao meu lado, de lutar por um sonho que apenas eu quero, de desculpar a cobardia do deixa andar. Acabou, não quero mais, transbordou a taça da paciência, bebi toda a indiferença, enjoei!

O Lobo nem se mexeu. Talvez não tivesse ouvido, talvez não tivesse entendido as palavras. Olhei-o outra vez, observei melhor, o focinho estava apoiado nas patas dianteiras, as orelhas pontiagudas continuavam alerta, e os olhos estavam semicerrados. Foi aí mesmo que me encontrei, estava ali no brilho que me trespassava, no arrepio que me provocou.

Subitamente fui despertada por um forte tropel. Virei a cabeça, vi o Alazão Negro e a Égua Branca, suor escorrendo pelos dorsos, manchas de poeira, bocas espumando de cansaço, orgulho nas silhuetas insinuadas, vaidade de todo o vazio.

Passaram por mim, passaram pelo Lobo. Entre relinchos e saltos tentaram prender a atenção, adivinhar admiração, cheirar desejo. Mas não sentiram nada na indiferença descansada do Lobo que se levantou, sacudiu-se, enleou-se nas minhas pernas e voltou feito estátua, para a sombra que a pedra sempre lhe prometia. A Égua Branca galopou sozinha para o bosque distante e desapareceu. O Alazão empinou-se, tal como fizera quando o laço de corda o aprisionou, esperneou no ar insinuando-se, desistiu e fugiu.

Senti a força crescer em mim. Apeteceu-me gritar – “Vitória!”.

A liberdade assomou-se como uma corrente de água que me refrescou. Ouvi uma voz que ao longe me chamava. Reconheci o tom, bebi as palavras amigas, procurei o seu rasto, achei-me no caminho certo!

#2053

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