Os troncos quebrados e retorcidos
das árvores mortas, a erva baixa amarelecida, o chão duro que não desenha pés,
o charco de água barrenta mal cheirosa, a pedra maior ali arrumada, o sol
abrasador que tudo fervia, as asas das borboletas mortas que se atreveram, as
leoas famintas que esperavam, as lobas astutas que descansavam, a alcateia
distante que farejava, o Lobo Negro e a sua Loba que permaneciam, a gazela
sequiosa que os predadores arriscava, os leões que de longe rugiam, e a Savana…
A Savana continuava inóspita,
ameaçadora, real, mortífera. Mas mesmo assim, mesmo sem prometer, sem revelar o
seu enorme segredo, a Savana brilhava nos seus mistérios, desafiava, atraía os
mais incautos, os atrevidos, aqueles que julgavam que coragem era sinónimo de
inconsciência, que liberdade era palavra vã, abuso.
O Lobo estava ali, quieto, com os
olhos semicerrados, como se estivesse a dormir, como se nada interessasse,
porque afinal parecia tudo igual, porque afinal nada mudara, o sol era o mesmo,
o chão era o mesmo, a água era a mesma, a Loba era a mesma… Mas não! O Lobo não
dormia, observava e na sua astúcia, nos seus olhos, no seu corpo, notava.
O mistério daquela Savana todos
os dias o surpreendia. Em cada surpresa apreendia e crescia. Quanto mais o
mistério se adensava mais luz se fazia. Em cada contradição o Lobo se redimia.
As cicatrizes que ostentava no
dorso e, com orgulho exibia, eram de tantas batalhas, de momentos de fúria em
que o ódio ditara leis, a razão se apagara, a besta surgira. Mas o Lobo não era
temido apenas pela sua coragem, era-o também pela sua astúcia, era-o também
pela capacidade de remexer as entranhas de quem se aproximava, pelo faro que
possuía, como enganava o próprio vento e se saciava sem sequer água beber.
Sim ele estava ali, aproveitando
a sombra e a companhia, com os olhos semicerrados, mas não dormia. Quem mais de
perto o olhasse notaria o brilho, o olhar penetrante, os olhos transparentes,
aqueles que só se viam quando nos atravessavam, aqueles que abanavam as
nossas convicções, que acordavam cada instinto adormecido, que matavam
fantasmas, que desvendavam segredos, que transformavam fraquezas em muralhas,
lágrimas em sorrisos, pedras em flores.
Sim ele estava ali, fingindo que
dormia e pelos seus olhos semicerrados viu, viu a Gazela que mais uma vez
desafiava todos os predadores, que outra vez se arriscava a ser esquartejada,
devorada, e se aproximava lentamente de cabeça erguida. Mas desta vez passou
pelo charco sem sequer parar, sem sequer olhar a água suja, barrenta e mal
cheirosa, como se o ardente bafo da Savana não lhe tivesse secado a garganta e
a sede não a atormentasse. Elegante contornou a pedra, confundiu-se com a
sombra da rocha que o Lobo e a Loba abrigava, e parou.
Parou perto, olhou, baixou a
cabeça, olhou os olhos semicerrados do Lobo e inexplicavelmente, lambeu o que
do focinho se via. O Lobo nem se mexeu! Apenas os olhos aclararam, os olhos
tornaram-se outra vez transparentes. A Gazela, depois, virou-se e fugiu.
A Gazela sabia que nunca mais o
seria, nunca mais seria frágil, nunca mais beberia aquela água vestida com
aquela pele, não mais dependeria da disposição dos predadores para sobreviver,
porque guardara em si o que aprendera, nascidas que foram as suas próprias
garras, descobertas que foram as suas próprias forças. O pasto não mais a
alimentaria, a água jamais a saciaria. Os predadores precisam de sangue, de
enfrentar desafios, de se desafiar, de vencer!
A Savana apenas acordara o que já
se sabia, apenas despertara o que se desconhecia.
Era o mistério da Savana que
afinal agradecia.
O Lobo, apoiou a cabeça no dorso
da Loba Negra, e os olhos semicerrados, que tinham voltado a ser transparentes,
seguiram a Gazela que se afastava.

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