sábado, 31 de agosto de 2013

Sinto que o furacão ficou por aqui.


A manhã amanheceu calma, ensolarada numa suave brisa, misturada com o bafo quente de mais um dia que se prometia, sem névoas, sem chuvas avistadas, enleada em cheiros, em lembranças, em estios iguais, apenas avisando no horizonte acinzentado.

As árvores permaneciam ali, ondeantes nos seus longos braços. Apontando o céu, pareciam querer chegar onde nunca chegariam, acompanhadas pelas melodias entoadas por pássaros, enquanto as borboletas continuavam a sobrevoar cada nota, a olhar cada pétala, esquecidas que estavam da lagarta que já fora sua.

Por entre as árvores, por cima das flores, sem tocar nos pássaros, ignorando as borboletas, arrastando os raios de sol que se viam, o furacão chegou, instalou-se, soprou. Soprou suavemente, tão suavemente, que qualquer tempestade tropical pareceria brisa, tão suavemente que qualquer trovoada enorme, pareceria Chopin, tão suavemente que a terra seca se remexeu, as árvores envolveram-se em danças, rodopiaram, as raízes remexeram tudo, esventraram a terra dura, puseram a nu as minhocas que viram a luz brilhando nos seus olhos cegos.

Chegou e desapareceu. O que estava ficou, nada destruiu, apenas remexeu. Acrescentou terra revolvida, raízes que se mostraram, flores que se misturaram, mas os pássaros deixou cantar, as borboletas deixou voar, o calor não abrandou.

Sinto que o furacão ficou por aqui.

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