A manhã amanheceu calma,
ensolarada numa suave brisa, misturada com o bafo quente de mais um dia que se
prometia, sem névoas, sem chuvas avistadas, enleada em cheiros, em lembranças,
em estios iguais, apenas avisando no horizonte acinzentado.
As árvores permaneciam ali,
ondeantes nos seus longos braços. Apontando o céu, pareciam querer chegar onde
nunca chegariam, acompanhadas pelas melodias entoadas por pássaros, enquanto as
borboletas continuavam a sobrevoar cada nota, a olhar cada pétala, esquecidas
que estavam da lagarta que já fora sua.
Por entre as árvores, por cima
das flores, sem tocar nos pássaros, ignorando as borboletas, arrastando os
raios de sol que se viam, o furacão chegou, instalou-se, soprou. Soprou suavemente,
tão suavemente, que qualquer tempestade tropical pareceria brisa, tão
suavemente que qualquer trovoada enorme, pareceria Chopin, tão suavemente que a
terra seca se remexeu, as árvores envolveram-se em danças, rodopiaram, as
raízes remexeram tudo, esventraram a terra dura, puseram a nu as minhocas que
viram a luz brilhando nos seus olhos cegos.
Chegou e desapareceu. O que
estava ficou, nada destruiu, apenas remexeu. Acrescentou terra revolvida,
raízes que se mostraram, flores que se misturaram, mas os pássaros deixou
cantar, as borboletas deixou voar, o calor não abrandou.
Sinto que o furacão ficou por
aqui.

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